Falemos de Lisboa com a memória, com a história que conhecemos ou ainda conseguimos adivinhar e viver. Nós amamos Lisboa, dependemos dela e ela depende de nós. Não esqueçamos que podemos desaparecer e ela irá sobreviver, enquanto centenas de milhares de lisboetas não puderam e não podem viver sem ela. Mesmo os que foram obrigados a sair da cidade para concelhos na área metropolitana ou para mais longe, a ela ficam ligados para sempre e aqui voltam quando podem.

 

Construir vida, ligações humanas, económicas e sociais leva muito tempo, centenas de anos. Fazer comunidade, ligações de bairro e de freguesia, olhar a oficina que resiste, o comércio de proximidade, o clube e a colectividade ameaçados pelas rendas mais elevadas, conhecermo-nos pelo nome e pelo trabalho que fazemos, frequentar o café e a livraria, está em vias de extinção. O idoso ou a mulher que chora à porta da casa que tem de largar porque a lei das rendas tornou insuportável resistir, a mulher jovem que vive num apartamento, algures em Campo de Ourique, e tem de o deixar porque o seu ordenado não comporta o aumento fortíssimo que o senhorio lhe impõe, indo viver nem sabemos para onde, são as notícias visíveis em jornais e televisões. Ser rodeado no metro, no autocarro e nas ruas por um turismo massivo, por malas e sacos, ver que os visitantes andam no eléctrico 28 como se fossem fantasmas à procura de jazigos no Cemitério dos Prazeres, saber que a loja com história sim, mas que tem de desaparecer e sucumbe à renda ditatorial e ignorante do essencial, ou a livraria, ou o pequeno café-restaurante de comida portuguesa e mediterrânica, trazem-nos cortes de identidade connosco próprios, desfazem memórias e gostos, acabam com o prazer de passear nas ruas, de saudar amigos e conhecidos, de recuperar forças para novos dias de agrado de viver.

 

A Lisboa da resistência clandestina ao fascismo, da organização da oposição democrática da CDE em bairros e freguesias, desde as eleições de 1969, foi fundamental para transformar um golpe militar que talvez ficasse por ali, pelo dia 25 de Abril que afinal se tornou numa referência mundial e nos honrou com as conquistas da liberdade, dos direitos, com a descolonização e a afirmação de nós mesmos. Foi a Lisboa popular que desceu dos bairros, das casas, e inundou as ruas, impulsionando os militares e marcando as vontades de transformar, de elevar essa coragem imperdível de sermos inteiros e nós, nos dias e dias claros e generosos que se seguiram.

 

Não sei o que se passa hoje em Florença, mas tenho no cérebro e no corpo o prazer imenso de há dez anos ter estado em catedrais, igrejas e outros monumentos, em exposições, em ruas inundadas de património e de alegria, de gentes que circulavam e fruíam, com respeito e crescimento humano, a arte e o gosto de existir, a gastronomia e a vontade popular de conhecer e amar o que nos faz ser maiores e melhores.

 

Hoje, com o turismo a dar dinheiro e a errar de rua em rua, sem projectos que façam valer o nosso património mais profundo, as artes, a literatura, as vivências comunitárias de cada bairro e freguesia, Lisboa corre o risco muito sério de perder referências fundamentais para atrair turismo que se afirme entre nós, na convivência e na fruição que eleva o ser humano. A construção e a urbanização de falsos iluminados a quererem ser marqueses de pombais sem pombos; as obras de passeios largos que eliminam estacionamentos sem quaisquer contrapartidas a ser a EMEL a bloquear; a não existência de trabalho e de trabalhadores em empresas novas e avançadas; a perda das dinâmicas que restam e o desaparecimento de referências identitárias, esse crime organizado e violento que é a expulsão de famílias das casas que habitaram desde o casamento e o nascimento dos filhos, em dezenas de anos de convivência e vizinhança, tudo isso vai concorrendo para tornar Lisboa naquela história da criança que aqui vivia e que saiu num dia de carro, a passear com os pais, para a periferia, e, ao ver pela primeira vez uma galinha, à beira da estrada, gritou “Mãe, olha um caldo Knorr”, porque a embalagem deste produto tinha essa imagem enganadora.

 

Não, não devemos deixar que impere a ganância dos fundos de investimento sem lei nem pátria, e mesmo que existam tantos casos de quem vive lá fora, que junta dinheiro e vem a Lisboa comprar um apartamento para entregar a uma empresa que o aluga a dias na cidade, corroendo-se assim a convivência e a proximidade entre moradores a tempo inteiro que desaparecem. Não podemos deixar que façam de Lisboa um caldo Knorr sem sabor e sem saúde, sem amizade e ligação ao que nos identifica e ajuda a sobreviver neste mundo de desemprego, de solidão e de morte em casa, dos que resistem e adoecem gravemente com as pressões dos senhorios, dos agenciadores de casas para compra e aluguer, como grupos de combate e destruição do que é nosso e nosso deve continuar.

 

É possível erguer turismo de qualidade para todos. Florença, em meu entendimento, muito mais do que Roma, por exemplo, é hoje uma referência imortal, porque houve inteligência e força para impor as ideias e os ideais, a memória e identidades. Barcelona estará a dar passos importantes para travar a descaracterização, o que é banal e inimigo da cidade. Lisboa já irá tarde nesse caminho urgente, de criarmos bases fundamentais de organização e redescoberta dos nossos valores, criatividade e força de libertar espaços, património e alegria de viver connosco e com os que nos visitam, os que gostam de enriquecer a inteligência, o prazer de estarem vivos e de regressarem melhores e mais humanos aos seus países.

 

Saibamos libertar Lisboa do folclore parvo, da ganhunça a todo o custo, do alojamento local a degradar-se e a degradar a vizinhança, sem lei nem roque. Saibamos defender o património, o monumento, a gastronomia que se perde para dar lugar a manjedouras de comer ao balcão qualquer coisa que a nada sabe e sempre a correr.

 

Conviver, enriquecermos com quem nos visita e traz vida, sofrimento, cultura e amizade de onde vem. Não nos amarrarmos ao avental, à toalha na mão; fazer o trabalho de bem receber com dignidade, com orgulho do que somos e queremos ser. Pôr nos olhos, na paisagem e na rua essa mensagem que deve guiar-nos: “Não, Lisboa não é um caldo Knorr”. Lisboa é uma cidade que tem de continuar maravilhosa e independente, orgulhosa do que é e do que tem de ser. Sábia a receber, a ouvir, a honrar um passado de capital do mundo descoberto e a descobrir, na troca de saberes e de diferenças, de contrastes e dessa forma elevada de ter erguido revoluções como 1383, 1640, 1910 e 1974. Revoluções que ensejaram caminhos e afirmação humana, de liberdade, de educação e de ideais republicanos, de revolução que ajudou a independências em África e a lições de como ser transformador, libertando forças populares e generosas, na dignidade de não baixar os braços, agora perante agressões pacóvias, de pretensa reabilitação, que são apenas negócios elevados para quem se aproveita dos que se põem a jeito para os servir.

 

Somos a capital do país e temos de sobreviver e afirmar as nossas responsabilidades históricas e identitárias, o que somos e queremos continuar a ser.

 

Lisboa é galinha dos ovos de ouro para especuladores e fundos imobiliários, mas isso não pode continuar. A cidade não pode ser um caldo Knorr para os lisboetas, para os que aqui vivem e para os que são expulsos da cidade.

 

 

 

Modesto Navarro

(Escritor)